Leitores e livros

“Jamais será um leitor verdadeiro aquele que não experimentou o fascínio e a angústia diante de enormes prateleiras repletas de livros não lidos.” George Steiner

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Ela se encontrava cabiscaída lendo e sua atenção para com o livro era demasiadamente imperturbável, mesmo tendo a sua volta a escuridão quintalória que se adentrava pela janela aberta. Na verdade, não queria lê-lo. Queria devorá-lo devido a sua fome canina, insaciável. Desejava comê-lo para, então assim, sentir cada pedaço de palavra sendo triturado por seus dentes muito brancos e perfeitos.

Era decepcionante para ela ir ao dentista, pois nunca era detectada uma cárie sequer. Indignada, ela passou a usar goma de mascar. Só assim, poderia um dia entender a sensação de possuir um dente cariado. Uma vã esperança apodrecida; um buraco enorme que, dia após dia, aguardaria o momento da degustação. E do livro, saliva e muco talvez ficasse dentro da cratera um resto da sua essência, ou algum vestígio da sua existência, que estando, faria latejar ao tocar na polpa do dente corroído. Às vezes, acreditava e outras vezes não; talvez não usasse devidamente o seu lado direito.

Não sentia dor ou prazer. Tudo se passava como um filme interminável. Podia ver, ouvir, gostar ou não. Não lhe era permitido participar. Não sentia o livro e ler era tão pouco. Fora escrito há tanto tempo. e o tempo não é nada quando se quer o tudo todo. Fora escrito por uma alma agonizada que descobriu o prazer da vida. Mas, sentimentos não são escritos. São sentidos ao toque. Os cegos vivem em êxtases, pois o seu mais mero olhar é um toque áspero no macio do algodão. Um livro morto é feito para os cegos. Eles não precisam de palavras para sentir. Mas, ela não é cega. Ela é apenas míope. Ao retirar os óculos do rosto, tenta em vão sugar os sentimentos das palavras vivas. Ela chora. Suspira, soluça e sussurra: – A dor está doendo em alguma parte de mim. Não quero me deparar com o fim…

Ela não queria que o livro acabasse. Então leu a primeira página e releu até perder a contagem, virou a segunda página e também a leu e releu infinitas vezes e, após isso, retornou a primeira página e continuava assim no seu cansativo processo. Já que não podia mastigá-lo, decoraria a posição de cada vírgula, ponto-e-vírgula e ponto. Só não queria decorar o ponto final. Quando pequena não brincava, pois temia o confronto com o final da brincadeira. Ela procurava a eternidade. E a eternidade não tem fim.

Há dois meses o livro lhe fazia companhia, e ainda estava na terceira página. A primeira deveria ter gosto de terra. Deveria ser uma terra barrenta. Mas o que adiantava saber o sabor se não o sentia? Era como ver o sorvete do desconhecido e não poder dar uma lambidinha sequer. A segunda deveria ter sabor de água barrenta. Umas mistura heterogênea de água mais barro; de água mais terra barrenta. Como deveria ser saborosa!

E seus sonhos sedentos, ao fechar os olhos, não passavam de um deserto onde ela de terno, em meio a tanto sol infrutífero, tentava em vão consertar a posição da gravata que teimava em ficar torta.
A terceira página teria gosto de adubo; a maciez do áspero excremento seco ao sol. Não o infrutífero, mas outro bem maior e mais quente; bem menor e mais frio. Um sol oscilante, e ao sê-lo por ser, dava o devido tempero apimentado. Podia até sentir o quanto queimaria a ponta da língua.
Ela ficava imaginado o que viria depois, mas independente do depois, ela teria sempre a primeira página. E cada dia que passava, eliminava o fim e adiava o depois.

Quando dormia, sonhava que tinha conseguido finalmente a fórmula para sentir o livro: um homem de chapéu vermelho arrombava a porta dos fundos; ela ficava com medo e acordava. O homem era a porta. A porta era o livro e o livro era uma mulher. O livro queria ser arrombado, e através da porta ela seria mulher e se fazendo mulher não teria medo. Poderia então comer as palavras que há tanto tempo foram escritas. O medo do desconhecido impossibilitava que a sua vontade se fizesse verdade. Já não mais importava se nunca existisse um buraco em seus dentes. Era preciso urgentemente ser. Não teria medo da próxima página e não negaria o fim. Não negaria sua pobre vida incerta e vadia. Descobriu que não existe uma fórmula. Era preciso negar todas as fórmulas. Se fazia necessário continuar. Era preciso colocar o arado para funcionar e esquecer a gravata torta.

Ela elevou o livro até sua boca escancarada, e ao dar a primeira dentada nas amareladas palavras, uma dor aguda feriu sua alma, que de tanta emoção pulsava feliz, exultou plena de satisfação. Um dente seu estava carcomido. Não era mais preciso usar goma de mascar. Ela estava grávida de prazer e dor.

Depois que devorou todo o livro, uma ânsia de vômito acusou a indigestão. Toda sua emoção foi expelida garganta afora.
Ela se colocou cabiscaída frente a uma máquina de escrever e sua atenção para como o que escrevia era demasiadamente imperturbável… era o livro dentro de outro livro.